Maio 2026
Volume · I · Periódico Editorial

Saúde & Qualidade de Vida

Edição1 Periódico editorial de saúde integrativa · sob direção da Dra. Rose Borth

A odontologia que protege sua saúde.

Conheça o tratamento que está revolucionando a saúde bucal e como ela pode te ajudar na prevenção contra graves doenças.

I
Editorial Inaugural · Capítulo um

Por que esta revista existe

Uma carta às minhas pacientes sobre o que aprendi em vinte anos de consultório, o que mudei na minha prática nos últimos dez, e por que decidi escrever — mês após mês — para vocês.

Saúde & Qualidade de Vida · Edição 1Editorial Inaugural

Cara leitora, caro leitor, quero começar esta primeira edição com uma confissão profissional. Quando me formei em odontologia, há mais de duas décadas, a boca era ensinada como um território autônomo. Eu tratava dentes, gengivas, oclusões. O resto do corpo ficava no consultório do médico ao lado. Era assim que se aprendia, e era assim que se trabalhava.

Levei quase quinze anos para entender que essa fronteira era artificial — e perigosa. Pacientes voltavam para revisões anuais com a boca aparentemente bem cuidada, mas com diagnósticos novos no resto do corpo: diabetes que não fechava, pressão que não cedia, dor articular que ninguém explicava, cansaço crônico que nenhum exame confirmava. E, quase invariavelmente, quando eu olhava com atenção para a saúde bucal de cada um deles — não para os dentes isolados, mas para o microbioma, para a gengiva, para os focos antigos, para os materiais usados em tratamentos passados — havia algo ali. Quase sempre, havia algo ali.

Foi essa coincidência repetida que me fez procurar a literatura científica que existia mas que não chegava ao consultório convencional. Periodontite e doença cardiovascular. Microbioma oral e diabetes tipo 2. Porphyromonas gingivalis encontrada dentro de cérebros de pacientes com Alzheimer. Apneia do sono diagnosticada anos antes pelo dentista que olha desgaste dentário do que pelo cardiologista que mede pressão. Aos poucos, fui percebendo que a odontologia ensinada no curso de graduação cobria apenas uma parte do território clínico que o paciente apresenta.

A boca não está separada do restante do corpo. Alterações emocionais, alimentares, posturais ou hormonais afetam diretamente a saúde bucal — e a recíproca é igualmente verdadeira. Uma gengiva inflamada não é apenas uma gengiva inflamada: é, todos os dias, uma ferida aberta de centímetros quadrados por onde bactérias e mediadores inflamatórios entram na corrente sanguínea. Essa é a tese central desta revista.

O que mudou na minha prática

A odontologia integrativa, que pratico hoje no Centro de Saúde Integrativa que leva o nome desta casa, não é uma ruptura com a odontologia clássica. É uma ampliação dela. Continuo restaurando dentes, cuidando da estética e avaliando a função mastigatória. Mas faço tudo isso enxergando o paciente inteiro: a história de vida, o estresse, a alimentação, o sono, o ciclo hormonal, as medicações em uso, os sintomas que ele acha que não têm relação com a boca e quase sempre têm.

Mudei alguns hábitos importantes. Não trabalho mais com amálgama de mercúrio em nenhuma circunstância — e, quando uma paciente chega com restaurações antigas que precisam ser trocadas, removo seguindo o protocolo SMART da Academia Internacional de Medicina Oral e Toxicologia, com isolamento, aspiração de alta potência, ar respirável alternativo e planejamento clínico individualizado. Substitui titânio por zircônia nos casos em que faz sentido clínico. Investigo focos infecciosos ocultos antes de propor tratamentos extensos a pacientes com sintomas sistêmicos crônicos.

Investigo, sobretudo, a interface da boca com o resto. Passei a fazer exame minucioso de tecidos moles em toda consulta — porque câncer bucal mata sete mil brasileiros por ano e dois terços dos casos são diagnosticados tardios. Passei a perguntar sobre sono, ronco, rangidos noturnos, dor de cabeça matinal. Passei a conversar com o ginecologista, com o cardiologista, com o nutricionista, com o endocrinologista das minhas pacientes — porque a boca é a porta de entrada de um corpo cujos compartimentos só existem nos livros.

Por que escrever, em vez de só atender

Vinte anos de consultório me ensinaram uma coisa: a informação que chega ao paciente é, quase sempre, fragmentada, comercial ou alarmista. Vocês recebem campanhas de creme dental, anúncios de implante, listas de "alimentos que você deve evitar para ter um sorriso perfeito". O que não recebem é o que importa — o conhecimento sólido, médico-clínico, que permite que cada pessoa tome decisões informadas sobre o próprio corpo.

Esta revista existe para mudar isso. A cada mês, vamos tratar um tema da saúde bucal com profundidade e lastro científico. Sem floreio, sem alarmismo. Vamos conversar sobre o que muda no climatério, no envelhecimento ativo, na gestação, na adolescência. Vamos olhar para o homem 40+, para a mulher 60+, para a criança que respira pela boca. E vamos explicar, com base científica, as conexões entre saúde bucal e saúde cardiovascular, intestinal, hormonal e do sono.

A informação que chega ao paciente é, quase sempre, fragmentada, comercial ou alarmista. Esta revista existe para mudar isso. — Dra. Rose Borth

O que vem pela frente

A partir da próxima edição, em junho, abrirei uma coluna pessoal voltada a pacientes acima dos 60 anos — homens e mulheres em fase de pleno envelhecimento ativo, em que a saúde bucal passa a ter peso decisivo sobre a saúde geral. Vamos falar de mudanças hormonais, de remineralização sem flúor, de osteoporose e densidade óssea alveolar, de xerostomia, de hidroxiapatita biomimética. Vamos falar do corpo que muda — e do que a odontologia pode oferecer para que ele continue forte.

Nesta primeira edição, três caminhos. A Dra. Fernanda Borth Scherer, especialista em Endodontia, Odontologia Estética e Odontologia Integrativa, conduziu uma entrevista profunda sobre o conceito que organiza o nosso modo de trabalhar: a boca como sistema do corpo. O Dr. Moisés Scherer, especialista em Implantodontia, Cirurgias Maiores e Menores, abre uma coluna mensal dedicada à saúde do homem 40+. E eu, com este editorial, abro a casa.

Esta revista pretende ser uma leitura mensal. Não um folheto promocional. Não um anúncio camuflado. Uma conversa séria, escrita com tempo, sobre saúde bucal e suas conexões com o corpo inteiro.

Boa leitura — e até a próxima edição.

Dra. Rose Borth
Direção clínica e editorial
Especialista em Dentística Restauradora e Estética · Atua nas Disfunções da DTM
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II
Entrevista · Saúde Integrativa · Capítulo dois

A boca como sistema do corpo, ponto por ponto

Em diálogo aberto com a redação, a Dra. Fernanda Borth Scherer explica o microbioma oral, a inflamação sistêmica de baixo grau, a controvérsia do amálgama, os focos infecciosos ocultos — e o limite ético da prescrição que cada profissional pode oferecer ao paciente.

Saúde & Qualidade de Vida · Edição 1Entrevista

Uma frase aparece cada vez mais nas conversas de consultório: "meu dentista me falou que minha gengiva pode estar ligada ao meu problema de tireoide, mas eu não entendi como". A pergunta é honesta. A resposta não cabe em um corredor. Para esta primeira edição, conversamos com a Dra. Fernanda Borth Scherer, da equipe clínica do Centro de Saúde Integrativa, sobre o conceito que organiza a odontologia integrativa — e por que ele importa, em concreto, para o paciente.

Doutora, antes de entrarmos nos detalhes clínicos — como a senhora define, em termos próprios, odontologia integrativa?

É um modo de exercer a odontologia que reconhece a boca como parte funcional do organismo inteiro. Na prática, significa que, antes de tratar um dente isolado, eu preciso entender quem é a pessoa que tem aquele dente: como ela come, como ela dorme, como ela se relaciona com o próprio corpo, que doenças sistêmicas tem, que medicamentos toma, que histórico hormonal apresenta, qual o estado emocional dela. O sintoma bucal — uma gengiva que sangra, um dente que dói, uma sensibilidade que não passa — é quase sempre a ponta de um iceberg.

Não é uma especialidade isolada, é uma postura clínica. Eu continuo fazendo endodontia e odontologia estética. Mas faço tudo isso com a pergunta permanente: o que mais está acontecendo neste corpo?

Microbioma oral é uma expressão que entrou no vocabulário público há pouco tempo. O que ela significa, do ponto de vista clínico?

O microbioma oral é a comunidade de microrganismos — bactérias, fungos, vírus, arqueias — que habita a boca. São cerca de setecentas espécies bacterianas catalogadas, o que faz dele o segundo maior microbioma humano, atrás apenas do intestinal. Em equilíbrio, essas bactérias trabalham a favor do hospedeiro: ajudam a digerir, modulam imunidade local, competem com patógenos por espaço, produzem moléculas úteis.

O problema acontece quando esse equilíbrio se rompe. A gente chama isso de disbiose oral. Acontece quando a dieta vira ultraprocessada e alta em açúcar simples, quando o estresse crônico se instala, quando há tabagismo, quando há uso repetido de antibióticos. Espécies que antes eram minoritárias começam a dominar — Porphyromonas gingivalis, Aggregatibacter actinomycetemcomitans, Tannerella forsythia, Treponema denticola. Esse grupo é o que produz, lentamente, a periodontite.

Quando esse equilíbrio se rompe — quando se instala a disbiose oral —, o que está em jogo, sistemicamente?

A consequência é grave por três razões.

Primeira razão. O sulco gengival inflamado é, literalmente, uma ferida aberta. Em pacientes com periodontite avançada, a soma de todos os pontos sangrantes equivale a cerca de oito a vinte centímetros quadrados de tecido lesionado em contato direto com bactérias, vinte e quatro horas por dia (Page e Eke, 2001).

Segunda razão. Por essa ferida, bactérias e mediadores inflamatórios — interleucina-6, TNF-alfa, proteína C reativa — entram na corrente sanguínea. Eles atingem fígado, vasos, cérebro e articulações. Esse fenômeno tem nome: inflamação sistêmica de baixo grau.

Terceira razão. Engolimos cerca de um litro e meio de saliva por dia. Algumas espécies bacterianas orais sobrevivem ao pH gástrico e modulam o microbioma intestinal. O eixo boca-intestino é hoje um dos pontos centrais da pesquisa em medicina integrativa.

Em pacientes com periodontite avançada, a soma das gengivas sangrantes corresponde a cerca de oito a vinte centímetros quadrados de ferida aberta — em contato direto com bactérias, vinte e quatro horas por dia. — Dra. Fernanda Borth Scherer

Quais são, na sua leitura clínica, as principais doenças sistêmicas com relação documentada à saúde bucal hoje?

São muitas, e a lista cresce. Mas as principais, com evidência mais consolidada:

Doenças cardiovasculares. Periodontite eleva o risco de eventos cardiovasculares maiores. O mecanismo envolve a inflamação crônica somada à disseminação de patógenos pela corrente sanguínea, que contribuem para a aterogênese. Há trabalhos mostrando que o tratamento periodontal reduz a incidência desses eventos.

Diabetes. A relação é bidirecional. O diabético tem três vezes mais risco de periodontite, e o periodontítico tem o controle glicêmico piorado. Tratar a periodontite melhora a HbA1c em diabéticos tipo 2. Citocinas pró-inflamatórias interferem na sinalização da insulina.

Doenças neurodegenerativas. Esta é a linha de pesquisa mais inquietante. Em 2019, um estudo publicado na Science Advances encontrou DNA da Porphyromonas gingivalis dentro do cérebro de pacientes com Alzheimer, e as enzimas dela — chamadas gingipaínas — correlacionadas com a degeneração neuronal. Hoje há pesquisas ativas testando o tratamento periodontal como intervenção preventiva em demência.

Doenças autoimunes. Pacientes com artrite reumatoide têm cerca de três vezes mais prevalência de periodontite. Há evidência de que a Aggregatibacter actinomycetemcomitans induz a formação de proteínas citrulinadas, que estão entre os gatilhos suspeitos da própria artrite reumatoide. Lúpus se manifesta primeiro pela boca em parte dos casos. Tratar a periodontite melhora marcadores laboratoriais de AR.

Câncer. Periodontite está associada a maior risco de câncer digestivo — esôfago, pâncreas, colorretal — por disbiose ascendente e descendente. E o câncer bucal sozinho mata sete mil brasileiros por ano; setenta por cento dos casos são diagnosticados tardios. O dentista treinado é o porteiro do diagnóstico precoce.

O que mais me impressiona, na rotina clínica, é o tempo que se perde. Pacientes investigam por dez ou quinze anos queixas que não fecham — fadiga, dor articular, problema gastrointestinal, dor de cabeça crônica. Passam por vários especialistas. Ninguém examina a boca. Quando finalmente chegam a um consultório integrativo, encontramos com frequência um foco infeccioso oculto, uma periodontite avançada ou uma reação a material dentário antigo.

O amálgama de mercúrio segue presente em milhões de bocas brasileiras. Por que ele permanece, em 2026, um tema clinicamente relevante?

Porque ainda há, no Brasil, uma quantidade enorme de pacientes adultos que carrega restaurações de amálgama de mercúrio feitas há vinte, trinta, quarenta anos. O amálgama tem cerca de cinquenta por cento, em peso, de mercúrio metálico. A Organização Mundial da Saúde classifica o mercúrio como um dos metais mais tóxicos para a saúde humana, com toxicidade cumulativa.

Em 2013, o Brasil ratificou a Convenção de Minamata, que prevê a eliminação progressiva do mercúrio em todo o mundo, incluindo as amálgamas dentárias. O material libera vapor de mercúrio durante a mastigação, durante a escovação, no contato com bebidas quentes, durante o rangido de dentes noturno. Esse vapor é absorvido. Há uma associação documentada com doenças neurodegenerativas, doenças autoimunes — sobretudo tireoidianas e articulares — e neurotoxicidade.

Mas o ponto mais importante é o seguinte: a remoção também é um momento de risco se for feita errado. É por isso que existe o protocolo SMART — Safe Mercury Amalgam Removal Technique — desenvolvido pela Academia Internacional de Medicina Oral e Toxicologia. Envolve isolamento absoluto com dique de borracha, aspiração de alta potência, jato de água fria abundante, máscara nasal com ar respirável alternativo para o paciente, avental de proteção e filtro de mercúrio na clínica.

O que não pode acontecer é remoção sem protocolo. Aí o paciente recebe mais mercúrio em uma sessão de troca do que recebeu nos dez anos anteriores.

Outro território de controvérsia são os focos infecciosos ocultos — cavitações ósseas maxilo-mandibulares, conhecidas pela sigla NICO. Qual a leitura técnica que a sua clínica adota?

NICO é a sigla em inglês para Neuralgia-Inducing Cavitational Osteonecrosis. Em português: cavidade óssea com osso necrosado, em decomposição, na maxila ou na mandíbula. Acontece, com frequência maior do que se imagina, em áreas onde antigamente existiu um dente que foi extraído sem técnica adequada — sobretudo dentes do siso. O osso não regenera bem, fica uma área de osteonecrose silenciosa.

O problema é que essa cavidade não aparece em radiografia panorâmica convencional. Ela só é diagnosticada por tomografia computadorizada de feixe cônico de alta resolução, a CBCT, ou por cintilografia óssea — que mostra hipercaptação naquela área. Mesmo silenciosa, a NICO libera toxinas e bactérias anaeróbias na corrente sanguínea continuamente. Pode dar dor facial crônica, neuralgia, dor de cabeça persistente. Pode também ser totalmente assintomática, e o que vai aparecer é sintoma sistêmico distante — fadiga, doença autoimune, dor articular sem causa.

A doutrina é simples: todo paciente com sintomas inflamatórios crônicos sem diagnóstico claro merece ser investigado para focos ocultos antes de partir para tratamentos mais invasivos.

Aproveito o ponto anterior para uma pergunta de fronteira: até onde vai a competência prescritiva do cirurgião-dentista, e onde começa a do médico? É uma divisão que confunde o paciente.

É uma pergunta importante, e vale a pena ser técnica. A Lei 5.081 de 1962, que regulamenta a profissão, garante ao cirurgião-dentista o direito de prescrever medicamentos quando o objetivo da prescrição é relacionado à odontologia.

Na prática, quando o achado clínico extrapola o campo odontológico, a conduta correta é orientar, registrar e encaminhar para avaliação médica. A odontologia integrativa amplia a leitura do paciente, mas preserva a divisão de competências entre as profissões.

O dentista não substitui o médico — a divisão de competência é clara e necessária. O que muda é o lugar do dentista no mapa de cuidado do paciente. A boca contém informação sistêmica densa. Quem aprende a ler reconhece sinais que costumam aparecer no consultório odontológico antes de chegar ao consultório clínico.

Para encerrarmos, doutora: o que distingue, na prática, uma primeira consulta integrativa de uma consulta odontológica convencional?

A primeira consulta é mais longa. Geralmente noventa minutos. A maior parte desse tempo é anamnese — história clínica detalhada, não só odontológica. Eu pergunto sobre sono, sobre alimentação, sobre estresse, sobre doenças sistêmicas, sobre medicamentos, sobre histórico hormonal, sobre cirurgias anteriores, sobre extrações antigas — sobretudo dos sisos.

Depois vem o exame clínico minucioso. Não é só olhar dente. É exame de tecidos moles — palpação cervical, exame visual de mucosas com luz adequada, toque bimanual de língua e assoalho. É periograma completo, em todos os pontos. É avaliação de oclusão, da articulação temporomandibular, da musculatura facial, da postura cervical. É exame da língua — coloração, indentações laterais que indicam apneia, saburra que indica disbiose.

Pode haver pedido de exames complementares. Tomografia CBCT se houver suspeita de foco oculto. Saliva para análise de microbioma. Exames sanguíneos para vitamina D, vitamina B12, ferritina, perfil tireoidiano. E, dependendo do caso, parecer interconsulta com outros profissionais.

A primeira consulta é, antes de qualquer exame, uma anamnese detalhada. Sem ela, o exame clínico não tem âncora — e o tratamento odontológico passa a ser feito sobre uma boca em vez de sobre uma pessoa com histórico, medicamentos e sintomas que precisam ser conectados.

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III
Coluna mensal · Homens 40+ · Capítulo três

O que o consultório revela antes do check-up

Homens entre 40 e 60 anos chegam ao dentista por um motivo. Saem com outro. Bruxismo, apneia, desgaste oclusal e tensão mandibular contam, em silêncio, uma história metabólica e cardiovascular que costuma demorar anos para chegar à atenção do clínico geral.

Saúde & Qualidade de Vida · Edição 1Coluna · Homens 40+

Esta coluna começa com uma estatística clínica relevante. Cerca de cinquenta por cento dos pacientes que recebem o diagnóstico de apneia obstrutiva do sono apresentam bruxismo concomitante. A maioria desses pacientes chegou ao laboratório do sono pela queixa da esposa sobre o ronco, por solicitação do cardiologista após cansaço persistente ou pela investigação de pressão alta resistente. Quase nenhum chegou pelo dentista. Mas o dentista vinha vendo os sinais há anos.

Esta coluna existe para conversar com o homem de 40 a 60 anos — fase em que o corpo começa a mandar sinais sutis antes de mandar sinais óbvios, e em que o consultório odontológico costuma ser o primeiro lugar onde esses sinais aparecem por escrito.

O que o seu dente conta antes do seu coração contar

Pense na sua última consulta odontológica de rotina. Você foi por queixa específica — dor, sangramento, uma restauração que caiu — ou porque o lembrete da agenda apareceu. Em qualquer dos casos, o que o dentista observou em você foi mais do que ele anotou na ficha.

O homem entre 40 e 60 que chega ao meu consultório, na maior parte das vezes, tem pelo menos dois dos seguintes sinais:

Desgaste oclusal evidente. Faces dos molares achatadas, esmalte cortado, exposição de dentina amarelada nos pré-molares. Isso indica anos — não meses — de bruxismo do sono.

Indentações laterais na língua. Marcas dos dentes na borda lateral da língua. Isso indica que a língua, durante o sono, é empurrada contra os dentes — sinal clássico de apneia obstrutiva subjacente, mesmo nas formas mais leves.

Hipertrofia dos masseteres. Os músculos das bochechas — entre o canto da boca e o ângulo da mandíbula — ficam volumosos ao toque, mesmo em repouso. É um músculo que trabalha à noite, há anos, sem descanso.

Mucosite na parede interna das bochechas. Linha esbranquiçada bilateral, na altura dos dentes inferiores. É a marca da pressão noturna constante.

Recessão gengival generalizada, mesmo com escovação adequada. Resultado do trauma oclusal — não da placa bacteriana.

Cefaleia matinal recorrente. Dor que aparece ao acordar e melhora ao longo da manhã. Classicamente, dor temporal ou frontal — não a dor latejante das enxaquecas verdadeiras.

Quando dois ou mais destes sinais estão presentes, o diagnóstico se monta sozinho — e ele costuma vir antes do diagnóstico do clínico, antes do polissonograma, antes do exame cardiológico.

Em parte significativa dos pacientes com apneia obstrutiva, o bruxismo do sono funciona como reflexo respiratório. Quando o cérebro detecta queda de oxigênio durante a noite, dispara um microdespertar e uma contração da musculatura mandibular. Essa contração protrai a mandíbula e abre a via aérea bloqueada. O desgaste dentário, neste caso, é o sinal visível desse esforço noturno.

A cadeia que liga a mandíbula ao coração

Apneia do sono não tratada, em adulto de meia-idade, é fator de risco independente para hipertensão arterial sistêmica, fibrilação atrial, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, diabetes tipo 2, depressão maior, declínio cognitivo precoce e mortalidade geral aumentada. A literatura é consistente, e ela é robusta.

O mecanismo é direto. Cada episódio de apneia gera um microdespertar com descarga adrenérgica — adrenalina pico, frequência cardíaca acelera, pressão arterial sobe. Multiplique isso por cinquenta, oitenta, cento e vinte episódios por noite, por dez anos. O sistema cardiovascular trabalha à noite o que deveria estar descansando. O resultado clínico é o que vemos: o homem de cinquenta e poucos anos que toma anti-hipertensivo, que tem perfil glicêmico alterado, que dorme oito horas e acorda cansado, que se irrita com facilidade, que perde memória de curto prazo. E que, quase invariavelmente, range os dentes.

O dentista treinado é, com frequência, o primeiro profissional a fechar esse diagnóstico. Não porque seja médico — não é, e o tratamento da apneia, da hipertensão, do diabetes é da medicina. Mas porque vê, na boca, a paisagem de uma noite que ninguém viu.

Em parte dos pacientes com apneia obstrutiva, o bruxismo do sono não é defeito mecânico do dente. É a musculatura mandibular se contraindo por reflexo para abrir a via aérea quando a respiração se obstrui durante a noite. — Dr. Moisés Scherer

Dor na mandíbula que ninguém investiga

Ao lado do bruxismo, a outra queixa frequente na meia-idade masculina é a dor na articulação da mandíbula — chamada na linguagem clínica de DTM (disfunção temporomandibular). Não é uma doença única, mas um conjunto de sintomas: dor ao mastigar, estalos ao abrir a boca, dificuldade de abertura, dor muscular na face. Dados clínicos indicam que cerca de oitenta e sete por cento dos pacientes com dor miofascial associada a deslocamento de disco apresentam bruxismo concomitante.

No homem 40+, a DTM costuma vir acompanhada de tensão cervical, dor referida ao pescoço e ao ombro, e — em parte importante dos casos — zumbido no ouvido. O zumbido frequentemente desaparece quando a oclusão é tratada e a musculatura mandibular relaxada. A explicação anatômica é direta: a articulação temporomandibular fica adjacente ao ouvido interno, e a tensão muscular crônica desorganiza a função coclear da região.

O que o dentista pode fazer — e por que isso importa

O tratamento do bruxismo do sono associado à apneia tem duas frentes paralelas. A primeira é odontológica: o aparelho intra-oral de avanço mandibular, sob medida, que mantém a via aérea aberta durante o sono. Em casos leves a moderados, ele tem eficácia comparável ao CPAP — com adesão clínica muito superior, porque o paciente realmente usa. A segunda é médica: o encaminhamento para polissonografia, para o pneumologista, para o cardiologista. Os dois caminhos andam em paralelo. Quando o tratamento é conduzido corretamente, os resultados clínicos são consistentes: pressão arterial reduz, controle glicêmico melhora, qualidade do sono se restabelece e a cognição diurna se reorganiza.

Procure o dentista quando

Sinais que pedem avaliação odontológica antes do próximo check-up

  • Você acorda com a mandíbula travada ou dolorida — mesmo que esporadicamente
  • Você tem dor de cabeça frontal ou temporal pela manhã, várias vezes por semana
  • Sua esposa, esposo ou companheiro reclama de ronco habitual ou de pausas respiratórias durante o seu sono
  • Você sente zumbido no ouvido sem causa otológica conhecida
  • Você acorda com a língua marcada nas laterais
  • Seu dentista comentou que os seus dentes estão desgastados — mesmo que você não tenha sentido nada
  • Você dorme sete a oito horas por noite e ainda acorda cansado

O que vem na próxima edição

Em junho, esta coluna vai entrar fundo na alimentação que protege a oclusão do homem maduro — vitamina D, magnésio, ômega-3, o papel do açúcar simples na inflamação gengival, e por que o whisky da sexta à noite é o pior amigo do bruxismo. Até lá, observe-se ao acordar. Mandíbula relaxada, ausência de dor temporal, língua sem indentações laterais e descanso reparador são sinais de uma noite saudável. Nenhum exame de sangue revela isso. O dentista, sim.

Dr. Moisés Scherer
Coluna mensal · Saúde do homem maduro
Especialista em Implantodontia, Cirurgias Maiores e Menores
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Nesta casa

Quem assina esta edição

Dra. Rose Borth · Direção editorial e clínica do periódico. Especialista em Dentística Restauradora e Estética. Atua nas Disfunções da DTM. Diretora do Centro de Saúde Integrativa que leva seu nome, dedicada ao cuidado bucal como parte da saúde sistêmica.

Dra. Fernanda Borth Scherer · Cirurgiã-dentista, integrante da equipe clínica. Especialista em Endodontia, Odontologia Estética e Odontologia Integrativa. Co-autora desta edição na seção de entrevista.

Dr. Moisés Scherer · Cirurgião-dentista, integrante da equipe clínica. Especialista em Implantodontia, Cirurgias Maiores e Menores. Responsável pela coluna dedicada à saúde do homem 40+.

Próxima edição
Mulheres 60+: o silêncio hormonal que a boca conta primeiro
Junho de 2026

Saúde & Qualidade de Vida Volume I Edição 1 Maio 2026

Periódico editorial sob direção da Dra. Rose Borth · Centro de Saúde Integrativa

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Tipografia: Cormorant Garamond, DM Sans